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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Resumo da Bíblia



Resumo dos livros da Bíblia






RESUMO DOS LIVROS DO ANTIGO TESTAMENTO

O Pentateuco - é o nome dado aos cinco primeiros livros da Bíblia (Gen, Ex, Lev, Num, Dt) e constituem a Lei de Moisés ou Torá.

O livro do Gênesis - narra as origens do homem e do mundo criados por Deus, e apresenta-nos a maravilhosa história dos Patriarcas: Abraão, Isac e Jacó. A mensagem deste livro é importantíssima. Entre outras coisas traz a revelação de Deus sobre os seguinte pontos:
1 - Deus é o Criador do mundo e do homem.
2 - Deus é distinto do universo; quer dizer, não existe o Panteísmo que defende que Deus e o mundo são a mesma coisa; e o mundo seria apenas uma ¨emanação de Deus¨.
3 - O mundo é bom.
4 - O mundo criado manifesta a glória e a paz de Deus.
5 - O homem foi criado da terra, mas foi animado de um espírito de vida (alma) imortal, criado e dado por Deus.
6 - O homem foi criado para viver na amizade de Deus.
7 - O homem foi criado livre.
8 - A harmonia primitiva foi destruída pelo pecado da desobediência a Deus. O homem tem a vã esperança de ser Deus (pecado original).
9 - O homem foi excluído do Paraíso.
10 - Deus faz a Promessa de Redenção da humanidade através da Mulher.
11 - O homem foi dominado pelo pecado e o mal se generaliza: Caím, Torre de Babel, Sodoma e Gomorra, etc..
12 - Deus faz uma primeira aliança com o homem através de Noé.
13 - Deus continua a aliança com Abraão, Isac e Jacó.
O livro do Êxodo - narra a ida do povo de Israel para o Egito e a escravidão alí sofrida. Deus chama Moisés e através dele tira o povo do Egito milagrosamente; em seguida estabelece uma Aliança com Moisés e dá ao Povo os seus Mandamentos, leis, preceitos, ritos e cultos.

O livro do Levítico - narra as Leis dos rituais, as leis sociais, as prescrições, as bênçãos e maldições, os sacrifícios oferecidos a Deus (holocaustos, oblações, sacrifícios pacíficos, sacrifícios de expiação). Era o livro dos levitas ou sacerdotes do povo. São as leis relativas ao culto e à santidade do povo.

O livro dos Números - fala do recenseamento do povo feito por Moisés no deserto e apresenta as listas de nomes e números. Contém ainda outras leis misturadas com a narrativa da caminhada até as margens do rio Jordão.

O livro do Deuteronômio, que quer dizer ¨segunda lei¨, consta de cinco sermões de Moisés que recapitulam a Lei e narra o fim da vida de Moisés.

Os livros Históricos - Há 16 Livros históricos na Bíblia (Josué, Juízes, Rute, I e II Samuel, I e II Reis, I e II Crônicas, Esdras, Neemias, Tobias, Judite, Ester, I e II Macabeus) que narram a história do povo hebreu desde a entrada na Terra Prometida até os tempos dos Macabeus, já próximo de Jesus cerca de 150 anos.

O livro de Josué - Narra a árdua missão de Josué, indicado por Deus a Moisés para ser o seu sucessor e introduzir o povo na Terra prometida, fazendo o povo viver as leis que Deus deu a Moisés, distribuindo a terra entre as tribos de Israel e lutando contra os cananeus. Mostra a fidelidade de Deus às suas promessas feitas ao povo. É uma continuação lógica do Pentateuco.

O livro dos Juízes - narra as suas histórias desde a morte de Josué até Samuel. Josué ao morrer não deixou sucessor. As doze tribos de Israel já estavam estabelecidas na terra prometida, mas não tinham um governo central, mas eram unidas pela religião monoteísta (um só Deus), diferente dos outros povos de Canaã que tinham muitos deuses (Baal, Aserá, Astarte). Israel convivia com esses povos pagãos e muitas vezes caiu na idolatria. Neste contexto Deus suscitou os Juízes em Israel. Eram heróis, muitas vezes dotados de força física ou carismas especiais para libertarem uma ou mais tribos de Israel dominadas pelos extrangeiros. Não tinham sucessores nem dinastia, não promulgavam leis e nem impunham impostos. São o testemunho vivo de que Javé jamais abandonou o seu povo. Entre os grandes juízes encontramos Eli e Samuel, que foram os únicos que tiveram autoridade sobre todo o Israel, embora não tinham sido chefes de exércitos como os outros. Ao todo foram doze juízes. Os maiores foram Otoniel (da tribo de Judá), Aod (Benjamim), Barac (Neftali), Gedeão (Manassés), Jefté (Gad), Sansão (Dã). Os menores são Samgar (Simeão), Tolá (Issacar), Jair (Galaad), Abesã (Aser), Elon (Zabulon) e Abdon (Efraim). Os 21 capítulo de Juízes cobre um período de quase 200 anos que vai de 1250 a 1050, da morte de Josué até o primeiro rei de Israel, Saul.

O livro de Rute - é posterior ao exílio na Babilônia (587 - 537 AC). Conta a bela história de Rute, a moabita que desposou Booz, israelita, e dos quais nasceu Obed, o pai de Jessé, que foi o pai do rei Davi. A finalidade do livro é transmitir uma história edificante sobre as origens da família de Davi, que teve, então, entre os seus antepassados uma moabita, isto é, um membro que não era do povo judeu, e até seu inimigo. Isto já ensina a universalidade da salvação preparada por Deus para todos os homens (cf. Rt 2,12). O mesmo se dá com o livro de Jonas. Mateus, na genealogia de Jesus, faz questão de citar Rute, para significar que Ele não é filho apenas de israelitas, e Salvador não só dos judeus, mas de todos os homens.

Os livros de Samuel - foram escritos após o ano 622AC, e narra as histórias de Samuel, o último dos Juízes, do rei Saul e do rei Davi. Continuam as narrações contidas nos livros dos Juízes e cobrem um período da história de Israel de 1050 a 970 aC. Samuel, o último dos juízes foi incumbido por Deus para sagrar o primeiro rei de Israel, Saul.

Os livros dos Reis - narram a história dos reis de Israel, Saul, Davi, Salomão, etc. , e vai até o exílio do ano 587aC quando aconteceu o exílio para a Babilônia. Narra a construção do Templo por Salomão, a separação das 12 tribos de Israel em dois reinos rivais (Samaria e Judá), e conta, entre outras coisas, a queda de ambos os reinos, a destruição de Jerusalém, , a história de Elias, Eliseu, a Reforma de Josias e a destruição de Jerusalém pelos babilônios. O livro cobre cerca de 400 anos de história de Israel (970-570 aC). Começa com os últimos dias de Davi e vai até a libertação de Jeconias, rei de Judá, detido na Babilônia (561). O livro conta a história dos dois reinos de Israel separados e rivais. Apresenta os doze reis de Judá, todos da descendência de Davi; e os dezenove reis da Samaria, pertencentes a nove dinastias diferentes, perdendo, então, a descendência de Davi.

Os dois livros das Crônicas I e II(ou Paralipômenos = as coisas omitidas) - formam com os livros de 

Esdras e Neemias um bloco homogêneo chamado de ¨obra do Cronista¨. Narram as histórias de Israel, repetindo ou completando o que já foi narrado em Samuel e Reis. Na
verdade, reapresenta a história narrada em Samuel e Reis, mas com uma perspectiva ainda mais religiosa. Trazem uma tabela genealógica desde Adão até Davi; a história do rei Davi, de Salomão e dos reis de Judá, e procura dar um significado teológico aos acontecimentos narrados.

O livro de Esdras (sacerdote) e Neemias (governador) - são do mesmo autor das Crônicas e contam as histórias desses personagens importantes que restabeleceram a restauração religiosa e moral de Israel após o exílio da Babilônia. Cobre uma época que vai de 538 a 430 aC. Narram a construção e a dedicação do Templo, a reconstrução das muralhas e da cidade de Jerusalém. É o tempo dos profetas Ageu, Zacarias e Malaquias. Foi o renascimento do judaísmo após o exílio, a partir de Judá que volta do exílio; e daí nascerá o Messias. Por isso Esdras é chamado o ¨ pai do Judaísmo¨.

Os livros de Tobias, Judite e Ester - são livros escritos no gênero literário chamado de midraxe, que é a narração de um fato histórico com ênfase religiosa, isto é, na ação de Deus que age em defesa dos fiéis, realçando os aspectos edificantes e moralizantes dos fatos narrados, com o intuito de formar os leitores. São histórias edificantes que não se pode saber bem quando ocorreram, e que não se referem a todo o Israel, mas apenas a uma pessoa, família (Tobias) ou cidade (Judite). São belos livros, de leitura muito edificante, que mostram a ação de Deus, na vida de uma pessoa, de uma família ou de uma cidade que nele confia. É importante notar a figura de duas mulheres, usadas por Deus para a sua obra de salvar o seu povo. Ester é figura de Nossa Senhora.

Os livros dos Macabeus - contam a história do povo Judeu no tempo da opressão dos sírios, especialmente pelo rei Antíoco IV Epífanes (175 -163), que queria obrigar o povo a praticar as leis pagãs e rejeitar a lei de Deus. Levantou-se Matatias, sacerdote, como chefe de guerrilha e guerra contra os sírios, com os seus filhos João, Simão, Judas, Eleazar e Jônatas. A revolta dos Macabeus surgiu por esta causa e vai aproximadamente de 175 a 163 aC., já no limiar da chegada de Jesus.
Do tempo de Esdras (400) até os Macabeus (175), temos um período de cerca de 225 anos dos quais a Bíblia nada fala. Parece terem sido tempos de paz, embora Israel ainda vivesse sob o jugo de Alexandre Magno, e depois os sírios.

Os livros sapienciais - Há 7 livros na Bíblia que são chamados de Sapienciais, isto é, que falam da sabedoria de Deus. Vamos examiná-los.

O livro de Jó - foi escrito no século V antes de Cristo, e medita sobre a questão do sofrimento humano. Por que sofrem os bons? A sua mensagem principal é que o homem deve humilhar-se no sofrimento e confiar em Deus que sabe tirar o bem até mesmo do mal. Mostra a vitória, pela fé, de um homem que mesmo coberto de lepra da cabeça aos pés, sabe ainda confiar em Deus, sem perder a fé e sem blasfemar. A grande mensagem do livro é que não podemos conhecer todas as causas do sofrimento, mas devemos fazer um ato de confiança absoluta em Deus. E não ficaremos frustrados.
O livros dos Salmos - contém 150 salmos de Davi, Salomão e outros. Eram orações ¨cantadas com o acompanhamento de instrumentos de corda¨. Era por excelência o livro de oração dos judeus e também da nossa Igreja. Canta os louvores de Deus, as lamentações do povo, os cânticos religiosos, os poemas e as súplicas. Exprimem as mais diversas situações de ânimo; adoração, louvor, perseguição, saudades do santuário, desejo de Deus, confissão dos pecados, esperança em Deus que salva, oráculos messiânicos, cânticos de Sion, etc..

O livro dos Provérbios - trazem a riquíssima sabedoria que o povo judeu armazenou durante a vida muito sofrida, especialmente no exílio. É o mais representativo da literatura sapiencial bíblica, que datam do século X a.C., às quais foram acrescentadas normas que são do séc IV /III aC. Aos poucos a sabedoria foi tomando aspecto religioso, com as suas raízes no ¨temor do Senhor¨, e procura agradar a Deus. É vista como um dom de Deus. Os sábios atribuíam a ao próprio Deus a sabedoria. O termo provérbio vem do hebraico ¨Meschalim¨, que quer dizer ¨Máximas¨. O livro consta de nove coleções de máximas, as mais antigas atribuídas a Salomão.

O livro do Eclesiastes - é parecido com o livro de Jó; uma vez que ambos tratam da questão do sofrimento. O termo eclesiastes quer dizer ¨orador¨ ou ¨pregador¨, aquele que fala na assembléia. Enquanto Jó parte a realidade do mal, Eclesiastes parte da vaidade e da deficiência de todos os bens. Quem lê o livro pode à primeira vista ficar confuso, quando recomenda o gozo dos bens materiais; no entanto são apenas reflexões que o autor faz consigo mesmo, contraditórias, antes de chegar às conclusões. Por fim termina dizendo: ¨teme a Deus e guarda os seus mandamentos¨. O autor do livro não é Salomão, mas um judeu da Palestina que viveu no séc. III a.C.

O livro do Cântico dos Cânticos - quer dizer ¨o mais belo dos cânticos¨ . O tema do livro é o amor de um homem chamado Salomão e rei por uma jovem chamada de ¨a sulamita¨, guarda de vinhas e pastora. A interpretação é a seguinte: sob a imagem do esposo é figurado o próprio Deus e, sob a imagem da esposa, a filha de Sion, o povo de Israel, que Deus escolheu entre todas a nações. Na perspectiva cristã é a figuração de Cristo (Esposo) e a Igreja (Esposa).Os místicos viram também na figura da esposa a Virgem Maria e, também, qualquer alma fiel a Deus. As fortes cenas de amor são uma maneira oriental de se expressas e não devem nos impressionar ou levar-nos a conclusões erradas; são fortes para mostrar o quanto Deus ama a humanidade.

O livro da Sabedoria - foi escrito por um judeu de Alexandria no norte do Egito, com o objetivo de fortalecer a fé dos judeus que viviam nesta região, de modo a não aderirem à religião dos povos desta região. Muitos judeus viviam nesta rica cidade fundada por Alexandre Magno (†324a.C). O autor exalta a Sabedoria judaica, cuja origem é Deus; e quer mostrar que ela nada é inferior à grega, que domina Alexandria.

O livro do Eclesiástico (ou Sirácidas) - A tradução grega é ¨Sabedoria de Jesus filho de Sirac¨. Os cristãos de língua latina o chamavam de ¨Ecclesiasticus¨, já que era usado para ensinar os bons costumes aos catecúmenos que se preparavam para o Batismo. Era o livro da ¨Ecclesia¨ (Igreja). É um pouco parecido com o livro dos Provérbios, mas revela uma fase mais avançada do pensamento dos judeus. O livro deve ter sido escrito aproximadamente no ano 190 aC em Jerusalém, em hebraico, e depois foi traduzido para o grego em 132 aC.

Os livros proféticos - são 18. A partir de Samuel (sec.XI a.C) até Malaquias (sec.V a.C) a série dos profetas foi ininterrupta e eles exerceram papel muito importante no reino de Israel: eram conselheiros dos reis, censuravam as injustiças, condenavam toda idolatria, etc.

Os profetas Isaías, Jeremias, Oséias, e Amós, atuaram antes do exílio (587-538 a.C) e mostravam aos reis e ao povo as suas faltas, pelas quais Deus os abandonaria nas mãos dos estrangeiros.
Os profetas Ezequiel e o ¨segundo¨ Isaías (Is 40-55) agiram durante o exílio procurando erguer o ânimo do povo.

Os profetas Ageu, Zacarias e Malaquias atuaram depois do exílio incentivando o povo a reconstruir o Templo e os muros de Jerusalém, além de empreender a reforma religiosa, moral e social da comunidade judaica e predizendo a glória do futuro Messias.
Os profetas Oséias, Amós, Miquéias, Joel, Abdias, Jonas, Naum, Habacuc, Sofonias, Ageu, Zacarias, Malaquias, em número de 12, são chamados de profetas menores, não porque não foram importantes, mas porque nos deixaram escritos pequenos, que já no século II antes de Cristo eram colecionados em um só volume (rolo). Não é possível se saber com exatidão a época em que cada um deles atuou, mas sabemos que agiram do século VIII ao século III a.C. e fornecem dados importante da história de Israel e dos povos vizinhos.

O livro de Isaias - o profeta viveu de 740 a 690aC. Mas não foi o único autor de todo o livro. Este está dividido em três partes: Isaias I (capítulos 1-39) é do tempo do profeta; Isaias II (40-55) é da época do exílio da Babilônia (587-638aC) e Isaias III (56-66) foi escrito após o exílio na época da restauração do povo na sua terra. O profeta Isaías era filho de nobre família de Jerusalém, poeta , foi conselheiro dos reis Jaotã, Acaz e Ezequias numa época de infidelidade moral e religiosa por parte do povo de Israel. O livro de Isaías, por isso, é dito da ¨escola de Isaías¨; isto é, seus discípulos devem ter continuado a obra do mestre através dos séculos.

O livro de Jeremias - O profeta viveu de 650 a 567aC, nasceu perto de Jerusalém. O reino de Judá estava cada vez mais ameaçado pelos adversários, e o profeta anunciou a ruína da Cidade Santa e do Templo, por isso foi condenado à morte pelos sacerdotes e falsos profetas, mas escapou da morte. O livro contém os quarenta anos de pregação do profeta.

O livro das Lamentações - é uma coleção de cinco cânticos que choram a queda da Cidade Santa de Jerusalém ocorrida e 587aC. Os quatro primeiros são acrósticos. Reconhece a culpa do povo por causa dos seus pecados e o convoca à penitência e à oração.

O livro de Baruc - Baruc foi conselheiro e secretário (amanuense ) de Jeremias. Acompanhou-o ao Egito após a queda de Jerusalém em 587aC; o autor trato do povo no exílio da Babilônia e exorta-o para que não caia na idolatria dos babilônios, viva a lei de Moisés e não desanime.

O livro de Ezequiel - O profeta Ezequiel (= Deus dá força), era sacerdote, casado, e perdeu a esposa um pouco antes da queda de Jerusalém em 587aC. Exerceu o seu ministério até 571aC e, segundo uma tradição judaica morreu apedrejado pelos judeus. Acompanhou o povo de Judá na fase mais crítica da sua história, quando Jerusalém caiu sob Nabucodonosor. O livro de Ezequiel tem quatro partes: 1- (cap. 4-24), onde censura os judeus antes da queda de Jerusalém por causa dos seus pecados; 2- (cap. 25-32), que contém oráculos contra os povos estrangeiros que oprimiram os hebreus; 3 - (cap. 33-39), consola o povo durante e após o cerco de Jerusalém, prometendo-lhe tempos melhores; 4 - (40-48), descreve a nova cidade e o novo Templo após a volta do exílio.

O livro de Daniel - O profeta Daniel (=Deus é meu juíz), é o principal personagem do Livro. Os capítulos de 1 a 6 formam um núcleo histórico e contam a históri do profeta. Daniel foi um hebreu deportado para a Babilônia em 606 aC, fiel à lei de Deus, que o enriqueceu com dons diversos, tendo-se tornado importante na corte de Babilônia. Os capítulos 7 a 12 tem uma forma apocalíptica, que tem o seguinte sentido: na época em que os judeus estavam oprimidos por Antíoco Epifanes (167-164 aC) um hebreu piedoso escreveu a história dos último séculos de Israel, com a finalidade de animar os irmãos e apresentou a sua época como próxima da libertação messiânica. Faz referência ao Filho do Homem (7,13) e ao seu reino definitivo sobre as nações. Mais do que um livro profético, é um Midraxe e um Apocalipse, escrito no século II aC, não pelo profeta, mas por alguém que contou a sua história.

Os profetas menores

Amós - era natural de Técua (Judá). Pastor de gado e cultivador de sicômoros. Exerceu o chamado profético no reino da Samaria, sob o rei Jeroboão (783-743 aC). Pregou contra o luxo, a depravação dos costumes, o culto idolátrico, previu a queda do reino da Samaria em 721aC nas mãos dos Assírios. Foi um ministério curto mas forte.

Oséias - pregou também no reino do norte, da Samaria, sob Jeroboão II (783-743 aC). O livro mostra as relações de Javé com o povo judeu simbolizadas pelo casamento do profeta, que se casa com uma mulher leviana (Gomer), que o engana; mas que cai na escravidão; é, então resgatada pelo profeta que a recebe de novo como esposa. O tema principal do livro é o amor de Javé pelo seu povo.

Miquéias - profetizou sob Joatã, Acaz e Ezequias, reis de Judá (740-690 aC). Deve ter conhecido a queda do reino do norte em 721 e a invasão de Judá em 701 por Senaquerib. O profeta Jeremias cita um dos seus oráculos contra Judá (Jr 26, 18). Encontramos neste livro uma notável profecia messiânica (5,1-4).

Sofonias - Exerceu seu ministério sob o piedoso rei Josias (640-609 aC), que fez uma forte reforma religiosa em 622 (2Rs22,3-23,21). A mensagem principal de Sofonias é o anúncio do Dia do Senhor, também abordado por Amós e Isaías. O Senbor salvará o resto do seu povo, que lhe servirá na justiça, na humildade e na piedade.

Naum - era natural de Elcós. Trata somente da queda de Nínive, capital do império Assírio, que ameaçava os povos vizinhos e Judá. O livro é pouco anterior à queda de Nínive em 612 aC.

Habacuc - O livro trata do tema ¨porque o ímpio prevalece sobre o justo e o oprime?¨. É da época das ameaças dos Assíris sobre Israel. O Senhor responde indicando a queda final dos ímpios e a vitória dos justos. Mostra que Deus, por caminhos obscuros, prepara a vitória do direito e dos justos. ¨O justo viverá pela fé¨ (Hab 2,4; Rm 1, 17; Gal 3, 11; Hb 10,38).

Ageu - este profeta dá início ao último período dos profetas, após o exílio. O tom e a da Restauração. Ageu acompanha o povo na volta da Babilônia. Essa gente era hostilizada pelos estrangeiros que moravam na Judéia e nos países vizinhos, passava dificuldades. Então o profeta exorta este povo a reconstruir o Templo, e isto como condição para a vinda de Javé e do seu reino. Exerceu seu ministério no ano 520aC.

Zacarias - Exerceu o ministério também por volta do ano 520aC., após o retorno do exílio. O livro se refere a oito visões do profeta que tratam da restauração e da salvação de Israel. Seguem-se os oráculos messiânicos. A segunda parte do livro é de difícil entendimento, com fatos históricos difíceis de conhecer e com um apocalipse que descreve as glórias de Jerusalém nos últimos tempos.

Malaquias - seu nome significa ¨meu mensageiro¨. Dois grandes temas são abordados pelo profeta: as faltas dos sacerdotes e dos fiéis na celebração do culto; e o escândalo dos matrimônios mistos e dos divórcios. O Senhor anuncia o dia do Senhor que purificará os sacerdotes e levitas, punirá os maus e concederá o bem aos justos. Fala da promessa da vinda de Elias que precederá o dia do juízo final. O livro de aproximadamente 515 aC, anterior à proibição dos casamentos mistos devida à reforma de Esdras e Neemias em 445 aC.

Abdias - é o menor dos livros proféticos, e de difícil entendimento. Dirigido a Edom, povo vizinho de Judá, sob o rei Jorã (848-841 aC). O livro exalta a justiça e o poder de Javé, que age como defensor do direito.

Joel - o livro foi escrito após o exílio, próximo do ano 400aC. É um compêndio da escatologia (últimos tempos) judaica. Descreve o Dia do Senhor, caracterizado pela efusão do Espírito Santo, o juízo sobre as nações e a restauração messiânica do povo eleito. O ataque dos gafanhotos, da primeira parte, indica os acontecimentos que antecederão imediatamente o Dia do Senhor. A segunda parte tem a forma de um apocalípse que descreve a intervenção final de Deus na história, com abalo cósmico.

Jonas - é diferente de todos os outros livros proféticos. Narra a história de um profeta, Jonas, que recusou a ordem do Senhor para que fosse pregar aos ninivitas. Milagrosamente conduzido pela providência divina chega a Nínive e consegue converter a grande cidade. Deus lhe ensina que a sua misericórdia atinge a todos os povos. É uma narração didática, parabólica, não história, para mostrar aos judeus do século V aC, muito nacionalistas, que a salvação é universal.

RESUMO DOS LIVROS DO NOVO TESTAMENTO

Os Evangelhos

A palavra ¨Evangelho¨ vem do grego ¨evangélion¨, que quer dizer ¨Boa Notícia¨. Para os apóstolos era ¨aquilo que Jesus fez e disse¨(At 1,1). É a força renovadora do mundo e do homem.
A Igreja reconhece como canônicos (inspirados por Deus) os quatro Evangelhos: Mateus, Marcos, Lucas e João. Os três primeiros são chamados de ¨sinóticos¨ porque podem ser lidos em paralelo, já o de São João é bastane diferente. Existem também evangelhos apócrifos que a Igreja não reconheceu como Palavra de Deus. São os de Tomé, de Tiago, de Nicodemos, de Pedro, os Evangelhos da Infância, etc. Eles contém verdades históricas junto narrações fantasiosas e heresias.
Os evangelhos são simbolizados pelos animais descritos em Ez 1,10 e Ap 4,6-8: o leão (Marcos), o touro (Lucas), o homem (Mateus), a águia (João). Foi a Tradição da Igreja nos séculos II a IV que tomou esta simbologia tendo em vista o início de cada evangelho. Mateus começa apresentando a genealogia de Jesus (homem); Marcos tem início com João no deserto, que é tido como morada do leão; Lucas começa com Zacarias a sacrificar no Templo um touro, e João começa com o Verbo eterno que das alturas desce como uma águia para se encarnar.
Jesus pregou do ano 27 a 30 sem nada deixar escrito, mas garantiu aos Apóstolos na última Ceia, que o Espírito Santo os faria ¨relembrar todas as coisas¨ (Jo14, 25) e lhes ¨ensinaria toda a verdade¨ (Jo 16,13). Desta promessa, e com esta certeza, a Igreja que nasceu com Pedro e os Apóstolos, sabe que nunca errou o caminho da salvação. De 20 a 30 anos após a morte de Jesus os Apóstolos sentiram a necessidade de escrever o que pregaram durante esses anos, para que as demais comunidades fora da Terra Santa pudessem conhecer a mensagem de Jesus.

O Evangelho de Mateus - é o primeiro que foi escrito, em Israel e em aramaico, por volta do ano 50. Serviu de modelo para Marcos e Lucas. O texto de Mateus foi traduzido para o grego, tendo em vista que o mundo romano da época falava o grego. O texto aramaico de Mateus se perdeu. Já no ano 130 o Bispo Pápias, da Frígia, fala deste texto.
Também Santo Irineu (†200), que foi discípulo de S. Policarpo, que por sua vez foi discípulo de S. João evangelista, fala do Evangelho de Mateus, no século II.
Comprova-se aí a historicidade do Evangelho de Mateus. Ele escreveu para os judeus de sua terra, convertidos ao cristianismo. Era o únicos dos apóstolos habituado à arte de escrever, a calcular e a narrar os fatos. Compreende-se que os próprios Apóstolos do tenham escolhido para esta tarefa. O objetivo da narração foi mostrar aos judeus que Jesus era o Messias anunciado pelos profetas, por isso, cita muitas vezes o Antigo Testamento e as profecias sobre o Messias. Como disse Renan, o evangelho de Mateus tornou-se ¨o livro mais importante da história universal¨.

O Evangelho de Marcos - S. Marcos não foi apóstolo, mas discípulo deles, especialmente de Pedro, que o chama de filho (1Pe 5,13). Foi também companheiro de S. Paulo na primeira viagem missionária (At 13,5; Cl 4, 10; 2Tm 4,11). O testemunho mais antigo sobre a autoria do segundo evangelho, é dado pelo famoso bispo de Hierápolis, na Ásia Menor, Pápias (†135).

O Evangelho de Lucas - Lucas não era judeu como Mateus e Marcos (isto é interessante!), mas pagão de Antioquia da Síria (Cl 4, 10-14). Era culto e médico. Ligou-se profundamente a S. Paulo e o acompanhou em trechos da segunda e terceira viagem missionária do apóstolo (At 16, 10-37; 20,5-21). No ano de 60 foi para Roma com Paulo (At 27,1-28) e ficou com ele durante o seu primeiro cativeiro (Cl 4, 14; Fm 24) e acompanhou Paulo no segundo cativeiro (2Tm 4,11). A Tradição da Igreja dá seguinte testemunho deste Evangelho.
O texto foi escrito em grego, numa linguagem culta e há uma afinidade com a linguagem e a doutrina de S. Paulo. foi escrito por volta do ano 70. Como escreveu para os pagãos convertidos ao cristianismo, não se preocupou com o que só interessava aos judeus.
Mateus mostra um Jesus como Mestre notável por seus sermões - o novo Moisés, Marcos o apresenta como o herói admirável ( o Leão da tribo de Judá - Ap 5,5), Lucas se detém mais nos traços delicados e misericordiosos da alma de Jesus. É o evangelho da salvação e da misericórdia. É também o evangelho do Espírito Santo e da oração. E não deixa de ser também o evangelho da pobreza e da alegria dos pequenos e humildes que colocam a confiança toda em Deus.

O Evangelho de João - S. João era filho de Zebedeu e Salomé (cf. Mc 15,40) e irmão de Tiago maior (cf. Mc 1, 16-20). Testemunhou tudo o que narrou, com profundo conhecimento. É o ¨discípulo que Jesus amava¨ (Jo 21,40). Este evangelho foi escrito entre os anos 95 e 100 dC., provavelmente em Éfeso onde João residia.
João não quis repetir o que os três primeiros evangelhos já tinham narrado, mas usou essas fontes. Escreveu um evangelho profundamente meditado e teológico, mais do que histórico como os outros. Contudo, não cedeu a ficções ou fantasias sobre o Mestre, mostrando inclusive dados que os outros evangelhos não tem. Apresentando essa doutrina ele quis fortalecer os cristãos contra as primeiras heresias que já surgiam, especialmente o gnosticismo que negava a verdadeira encarnação do Verbo. Cerinto e Ebion negavam a divindade de Jesus, ensinando a heresia segundo a qual o Espírito Santo descera sobre Jesus no batismo, mas o deixara na Paixão. É um evangelho profundamente importante para a teologia dogmática e sacramental especialmente.

Os Atos dos Apóstolos
Não há dúvida de que foi escrito por S. Lucas, médico e companheiro de S. Paulo. Conta a história da Igreja, desde Pentecostes, guiada pelo Espírito Santo, até chegar em Roma com S. Pedro e S. Paulo.
Teofilacto (†1078) dizia que: Os evangelhos apresentam os feitos do Filho, ao passo que os Atos descrevem os feitos do Espírito Santo¨.
O livro se divide em duas partes: uma que é marcada pela pessoa de Pedro (At 1 a 12), e a outra marcada por Paulo (At 13 a 28) . Pedro leva o evangelho de Jerusalém à Judéia e à Samaria, chegando até a conversão marcante do primeiro pagão, batizado, Cornélio (At 10,1-11), o que abriu a porta da Igreja para os não judeus. Paulo promove a evangelização dos gentios mediante três viagens missionárias de grande importância. O capítulo 15 é a ligação entre as duas partes do livro, mostrando Pedro e Paulo juntos em Jerusalém, no ano 49, no importante Concílio de Jerusalém, que aboliu a circuncisão e reconheceu que o Reino de Deus é para toda a humanidade.
O testemunho mais antigo de que Lucas é o autor dos Atos é o chamado cânon de Muratori, do século II, que afirma:
¨As proezas de todos os apóstolos foram escritas num livro. Lucas, com dedicatória ao excelentíssimo Teófilo, aí reconheceu todos os fatos particulares que se desenrolaram sob seus olhos e os pôs em evidência deixando de lado o martírio de Pedro e a viagem de Paulo da Cidade (Roma) rumo à Espanha.¨
Notamos que o início de Atos dá uma sequência lógica ao final do evangelho de Lucas, e ambos são dedicados a Teófilo, além de que o estilo e o vocabulário são parecidos. Segundo São Jerônimo (348-520) os Atos foram escritos em Roma, quando Lucas estava alí ao lado de Paulo prisioneiro, em grego, por volta do ano 63.
Os Atos dos Apóstolos são portanto o primeiro livro de História da Igreja nascente, escrito por uma testemunha ocular dos fatos, que os narrou de maneira precisa e sóbria. Aí podemos conhecer o rosto da Igreja no primeiro século, sua organização, etc. É o evangelho do Espírito Santo.

As cartas de São Paulo
Paulo (ou Saulo) nasceu em Tarso na Cilícia (Ásia menor) no início da era cristã, de família israelita, muito fiel à doutrina e à tradição judaica; seu pai comprara a cidadania romana, o que era possível naquele tempo, então Saulo nasceu como cidadão romano, legalmente. Aos 15 anos de idade foi enviado para Jerusalém onde recebeu a formação do rabino Gamaliel (At 22,3; 26,4;5,34), e foi formado na arte rabínica de interpretar as Escrituras, e deve ter aprendido a profissão de curtidor de couro, seleiro. Por volta do ano 36 era severo perseguidor dos cristãos, mas se converteu espetacularmente quando o próprio Senhor lhe apareceu na estrada de Jerusalém para Damasco, onde foi batizado por Ananias. Em seguida permaneceu num lugar perto de Damasco chamado Arábia. No ano 39 se encontrou com Pedro e Tiago em Jerusalém (Gal 1, 18) e depois voltou para Tarso (At 9,26-30) acabrunhado pelo fracasso do seu trabalho em Jerusalém. Alí ficou por cerca de 5 anos, até o ano 43. Nesta época, Barnabé, seu primo, que era discípulo em Antioquia, importante comunidade cristã fundada por S.Pedro, o levou para lá. Em 44 Paulo e Barnabé são encarregados pela comunidade de Antioquia para levar a ajuda financeira aos irmãos pobres de Jerusalém. No ano 45, por inspiração do Espírito Santo, Paulo e Marcos (o evangelista) foram enviados a pregar aos gentios (At 13,1-3). A primeira viagem durou cerca de 3 anos (45-48) percorrendo a ilha de Chipre a parte da Ásia Menor. No ano de 49 Paulo e Barnabé vão a Jerusalém para o primeiro Concílio da Igreja, para resolver a questão da circuncisão, surgida em Antioquia. A segunda viagem foi de 50 a 53, durante a qual Paulo escreveu, em Corinto, as duas cartas aos Tessalonicenses (At 15,36-18,22). São as primeiras cartas de Paulo. A terceira viagem foi de 53 a 58. Neste período ele escreveu ¨as grandes epístolas¨, Gálatas e I Coríntios, em Éfeso; II Coríntios, em Filipos; e aos Romanos, em Corinto. No final desta viagem Paulo foi preso por ação dos judeus e entregue ao tribuno romano Cláudio Lísias, que o entregou ao procurador romano Felix, em Cesaréia. Aí Paulo ficou preso dois anos (58-60), onde apelou para ser julgado em Roma; tinha direito a isso por ser cidadão romano. Partiu de Cesaréia no ano 60 e chegaram em Roma em 61, após sério naufrágio perto da ilha de Malta. Em Roma ficou preso domiciliar até 63. Neste período ele escreveu as chamadas ¨cartas do cativeiro¨ (Filemon, Colossenses, Filipenses e Efésios). Depois deste período Paulo deve ter sido libertado e ido até a Espanha, ¨os confins do mundo¨ (Rom 15,24), como era seu desejo. Em seguida deve ter voltado da Espanha para o oriente, quando escreveu as Cartas pastorais a Tito e a Timóteo, por volta de 64-66. Foi novamente preso no ano 66, no oriente, e enviado a Roma, sendo morto em 67 face à perseguição de Nero contra os cristãos desde o ano 64. S. Paulo foi um dos homens mais importantes do cristianismo. Deixou-nos 13 Cartas. Vejamos um resumo delas.

As Cartas aos Tessalonicenses
As duas cartas tem como tema central a segunda vinda de Jesus (Parusia), que as primeiras comunidades cristãs esperavam para breve e a sorte dos que já tinham morrido. Paulo admoesta a comunidade para a importância da vigilância. As cartas do Apóstolo depois delas falam mais do Cristo presente na Igreja do que da sua segunda vinda.
Tessalônica era porto marítimo muito importante da Grécia, onde havia forte sincretismo religioso e decadência moral; havia uma colônia judaica na cidade, e é na sinagoga que Paulo começa a pregar o Evangelho. Havia dúvidas sobre a iminente volta do Senhor.
Na segunda carta Paulo retoma o mesmo assunto, exortando os fiéis a trabalharem, uma vez que ninguém sabe a data da vinda do Senhor. As cartas devem ter sido escritas por volta do ano 52 quando estava em Corinto, durante a sua segunda viagem missionária pela Ásia.

A Carta aos Gálatas
São Paulo visitou os gálatas na segunda e na terceira viagem apostólica. É hoje a região de Ankara na Turquia. A carta foi escrita por volta do ano 54, quando Paulo estava em Éfeso, onde ficou por três anos. O motivo da carta são as ameaças dos cristãos oriundos do judaísmo que querem obrigar ainda a observância da Lei de Moisés. Paulo mostra que é a fé em Jesus que salva e não a Lei. E exorta os gálatas a viverem as obras do Espírito e não as da carne.
Esta carta é também um documento autobiográfico de São Paulo, além de ser um documento de alta espiritualidade.

A Carta aos Coríntios
Corínto ficava na Grécia, região chamada de Acaia, e no ano 27aC. Cesar Augusto, imperador romano, fez de Corinto a capital da província romana da Acaia. Foi nesta cidade portuária, rica e decadente na moral, que Paulo fundou uma forte comunidade cristã na sua segunda viagem. Aí encontrou o casal Átila e Priscíla que muito o ajudou. Paulo ficou um ano e seis meses em Corinto, até o ano 53. Na sua terceira viagem ele ficou três anos em Éfeso, também na Grécia, e daí escreveu para os coríntios. A primeira carta contém sérias repreensões dos pecados da comunidade: as divisões e a imoralidade. Em seguida dá respostas a questões propostas sobre o matrimônio, a virgindade, as carnes imoladas aos ídolos, as assembléias de oração, a ceia eucarística, os carismas, a ressurreição dos mortos, etc. É uma das cartas mais amplas de S. Paulo em termos de doutrina e disciplina na Igreja.
A segunda carta é bem diferente da primeira, não é tanto doutrinária, mas trata das relações de Paulo com a comunidade, e desfaz mal entendidos, inclusive, e faz a sua defesa diante de acusações sérias que recebeu dos cristãos judaizantes. Nesta carta Paulo mostra a sua alma, seus sofrimentos e angústias pelo reino de Cristo. Resume-se na frase: ¨É na fraqueza do homem que Deus manifesta toda a sua força¨ (2Cor 12,9).

A Carta aos Romanos
A carta aos romanos é bem diferente das outras cartas de São Paulo, pelo fato de ser uma comunidade cristã que não foi fundada por ele, o que foi feito por S. Pedro. Esta carta foi escrita no final da terceira viagem missionária de Paulo, em Corinto, por volta do ano 57/58a fim de preparar a sua chegada em Roma. É uma carta onde temos o ponto mais elevado da elaboração teológica do apóstolo. Não trata de assuntos pessoais, mas da vida cristã, a justificação por Cristo que nos faz ser e viver como filhos de Deus e mostra a Lei de Moisés como algo provisório na história do povo de Deus. O ponto alto da carta é o capítulo 8, onde mostra que a vida cristão é uma vida conforme o Espírito Santo, que habita em nós, nos leva à santificação, vencendo as obras da carne, levando-a à transfiguração no dia da ressurreição universal. Tudo foi preparado por Deus Pai que nos fez filhos no Seu Filho, a fim de dar a Cristo muitos irmãos, co-herdeiros da glória do Primogênito (8,14-18).

As Epístolas do Cativeiro
Essas cartas são as escritas a Filemon, aos Colossenses, aos Efésios e aos Filipenses. Cada uma delas apresenta Paulo prisioneiro (Fm 1.9.10.13; Cl 4, 3.10.18; Ef 3,1; 4,1; 6,20; Fl 1, 7.13s). Trata-se do primeiro cativeiro em Roma (At 27,1-28). Paulo também esteve preso em Filipos (At 16,23-40); Jerusalém (At 21,31-23,31), em Cesaréia (At 23,35-26,32); em Roma segunda vez (2Tm 1,8.12.16s; 2, 9).

Carta a Filemon
Quando Paulo estava preso em Roma pela primeira vez, entre os anos 61- 63, foi procurado pelo escravo Onésimo, que fugira de seu patrão Filemon em Colossos e procurou abrigo em Roma. Pela legislação judaica o escravo fugitivo não devia ser devolvido ao dono (Dt 23,16), diferente da lei romana que protegia o patrão. Então Paulo devolve Onésimo a a Filemon, cristão, e pede-lhe que pela caridade de Cristo, receba o escravo não mais como coisa, mas como um irmão. É a primeira declaração dos direitos humanos no cristianismo.

Carta aos Filipenses
Filipos era uma grande cidade fundada por Filipe II, pai do Imperador macedônio Alexandre Magno, e que o imperador romano Augusto transformou em importante posto avançado de Roma (At 16,12). Durante suas viagens Paulo esteve três vezes em Filipos, e fez fortes laços de amizade com os cristãos. Esta carta é chamada de ¨a carta da alegria cristã¨, por repetir 24 esta palavra, aos filipenses que sofriam perseguições, como ele na prisão. ¨Alegrai-vos sempre no Senhor. Repito, alegrai-vos! ¨ (Fl 4,1). Nada pode tirar a alegria daquele que confia em Jesus.

Carta aos Colossenses
Colossos era notável centro comercial, que ficava na Frígia, na Ásia Menor, a 200 km de Éfeso, próxima de Laodicéia e Hierápolis. Paulo esteve por duas vezes na região da Frígia. O motivo da carta são os pregadores de ¨doutrinas estranhas¨, provocando um sincretismo religioso, com elementos judaicos, cristão e pré-gnósticos. Paulo fala do primado absoluto de Jesus Cristo, numa linguagem que os gnósticos entendiam. O ponto alto da carta é o hino cristológico (1,15-20) que mostra Cristo como o primeiro e o último, o Senhor absoluto no plano da criação e da redenção.

Carta aos Efésios

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Os Livros Proféticos



OS LIVROS PROFÉTICOS

Os Profetas em geral

A palavra profeta não significa necessariamente “aquele que prediz o futuro”, mas sempre designa “aquele que fala em nome de Deus”, seja para predizer o futuro, seja para interpretar o presente.

Os profetas, assim entendidos, sempre existiram no povo de Israel a partir de Abraão, o confidente do Senhor  Gn 18,17-19). A primeira mulher tida como profetiza é Maria irmã de Moisés;  Ex 15,20. A partir de Samuel (séc Xl a.C.) até Malaquias (séc V a.C.), a série dos profetas foi ininterrupta. Também na época de Samuel e depois, floresceram os chamados “colégios de Profetas” (lSm 10,5; 19,20; lRs 20,35; 2Rs 2,3.5.7.15; Am 7,14); eram comunidades que viviam em pobreza (2Rs 4,36s; 6,1-6) e obediência (lSm 19,20; lRs 22,11; 2fRs 2,3,5.7,15.. .); os seus membros entravam em êxtase sob o influxo de sugestão individual ou cóletiva (lSm 10,10-12; 19,20-24), impulsionacios por música, canto e dança (lSm 10,5; 2Rs 3,15).

Os profetas exercem paper importante na história de Israel; eram conselheiros dos reis, que os dissuadiam de fazer alianças com povos estrangeiros (pois estas levavam facilmente o povo á idolatria), ou censuravam as injustiças e os abusos cometidos na corte ou pelo povo; reprimiam a idolatria e os falsos cultos que se infiltravam na praxe da população israelita.

            Houve, sem dúvida, falsos profetas: alguns, sem ter chamado divino, se  apresentavam como profetas para ganhar dinheiro   (1Rs 22,13; Is 30,10; Mq 2,11; 3,5.11); procuravam justificar os vícios em vez de os censurar devidamente (Jr 23,9,40; Ez 13,1-16; Jr 14,14-15); anunciavam falsas calamidades ou ocorrências (Dt 18,20-22; Mq 3,5; Jr 28,9); eram negligentes no cumprimento do seu dever (Ez 3,17-21; 13,22s; 33,2-4).

            Antes do exílio (587-538), os profetas tinham a missão de mostrar ao povo e aos reis as suas faltas, em virtude das quais o Senhor Deus os entregaria aos estrangeiros; lutavam não só contra os falsos cultos, mas também contra o otimismo que animava os ouvintes com relação ao futuro da nação (Is 22,13s; Jr 21,8s; 28,1-17). Sobressairam então lsaías, Jeremias, Oséias e Amós.

Durante o exílio na Babilônia, os profetas procuraram erguer o ânimo do povo, sustentando-lhe a esperança abatida pelo duro golpe recebido dos estrangeiros. Veja Ezequiel e o chamado “segundo lsaías” (Is 40-55), que acompanharam o povo na Babi1ônia Ez 16,1-63; 20,39-44; 36,16-38; 40-48; Is,45,1-25; 48,20-22; 50,1-11...

Depois do exílio, Ageu, Zacarias e Malaquias incentivaram o povo a reconstruir o templo, os muros e a cidade de Jerualém e a empreender a reforma religiosa, moral e social da comunidade judaica, predizendo a glória do futuro Messias.

            Os escritos dos profetas são, por vezes, obscuros e de dificil interpretação. Isto se deve a diversas causas:

            1) Os profetas geralmente anunciavam seus oráculos de viva voz; eles mesmos ou seus discípulos escreviam um resumo da pregação oral..., resumo que não podia deixar de ser lacônico em muitos casos.. Faltava-lhe o complemento dos gestos que acompanhavam as palavras dos profetas; Ez 6,11; Ez 21,lls.17.

            2) Os oráculos dos profetas estão profundamente inseridos no seu contexto histórico e geográfico. Por conseguinte, os profetas aludem a acontecimentos da sua época, que ao estudioso moderno não são devidamente conhecidos,  o que dificulta o entendimento do texto bíblico, Sf 1,11; Na 1,11; 2,8; 3,8; Mq 4,8...
           
3) A linguagem dos profetas, de acordo com o estilo dos orientais, recorre a expressões e imagens hiperbólicas, que deixam o leitor, por vezes, confuso. Is 2,2-4; 9,5; 11,6-8; 65,25; Mq 4,3; 5,4-9; Ez 34,25...

            4) As visões referentes ao futuro carecem de perspectivas, isto é, os acontecimentos futuros que não são simultâneos, são vistos como se fossem simultâneos; as fases preparatórias e as fases finais do mesmo evento são descritas numa só cena, sem atenção à ordem cronológica. Por exemplo, em Is 7-11 a salvação messiánica é apresentada como se coincidisse com o fim do cativeiro assírio; em Is 40-55 a volta do exílio parece ser o prelúdio imediato do Reino messiânico; o mesmo se diga a respeito de Zc 9,1-17; Dn 9,20-27,
            5) A descrição da era messiânica e do próprio Messias é sempre fragmentária. Nenhum profeta descreve a obra do Messias em sua totalidade. Assim o Messias aparece como rei vitorioso em Is 24-27; Ez 38s; JI 4;... como Rei pacifico em Os 3,5; Am 9,11-15; Is 9,1-7; 11,1-8;.. . como Mestre em Is 2,3; 54,13; Mq 4,2; Os 10,12;... como sacerdote em Jr 33,14-26; Ez 40-48; Zc 6,9-14;. ,. como Servidor padecente em Is 52,13-53,12.

            Tomando por critério a extensão dos respectivos livros, os profetas são distribuídos em duas categorias: a dos maiores, compreendendo Isafas, Jeremias (com Lm e Br), Ezequiel e Daniel; e a dos menores, compreendendo Oséias, Joel, Amós, Abdias, Jonas. Míquéias, Naum, Habacuc, Sofonias, Ageu, Zacarias, Malaquias. 
ISAÍAS

            Isaías (770-687 a.C.) era filho de ilustre familia de Jerusalém, erudito poeta e estilista. Chamado em 740 para a missão profética (6,1), foi conselheiro dos reis Joatã, Acaz e Ezequias numa época em que a infidelidade religiosa e moral grassava na corte e no povo judeus.

            A partir do séc. XVIII, os críticos discutiram a unidade do livro de Isalas. Após muitas dúvidas, hoje os autores católicos (e, com eles, o magistério da Igreja) admitem ‘haver três partes bem distintas no livro de Isaias: ‘a primeira (cap. 1--39) seria do séc. VIII a.C., ou seja, dos tempos do próprio profeta; a segunda (cap. 40-55) dataria do exílio babilônico (587-538 a.C.); a terceira (cap. 56-66) terá sido escrita após o exílio, na época da restauração do povo em sua terrá. Por isto o livro de Isaías é atribuido à escola de Isaías; os discípulos deste profeta terão continuado a obra do mestre através dos séculos. Examinemos cada quel dessas partes.

            O 1º Isaías (1--39). Nesta seção o bloco 36-39 constitui uma parte de índole histórica; tem seu paralelo em 2Rs 18,13-20,19. Julga-se ue não provém da pena de Isaías, pois se refere a acontecimentos provavelmente posteriores à morte deste. A ordem cronológica dos fatos exigiria que os cap. 38--39 fossem lidos antes de cap. 36--37.

O conjunto Is 1-35 supõe as condições históricas em que viveu o profeta Isaias no séc. VIII a.C. Consta de várias coleções de dizeres, dispostas sem estrita ordem cronolágica. A maior parte desses oráculos deve ter sido redigida pelo próprio profeta Isaías, como atestam Is 30,8; 8,1 e os cap. 6-8 (que contém traços auto- biográficos). Admite-se, porém, que certas seções de Is 1--35 receberam sua forma literária definitiva por parte dos discípulos do profeta (Is 8,16); estes confrontavam entre si os discursos do mestre e os reuniam em coleções de acordo com o tema que abordavam. É possível que essas diversas coleções só tenham sido coletadas em um volume após o exílio ou cerca de 200 anos após a morte do profeta.

            Is 1--35 contém notáveis profecias messiânicas. Em Is 7,10--25 o Messias aparece como o Emanuel (= Deus conosco), que há de nascer de uma jovem (que no texto grego dos LXX é dita “virgem”); Is 7,14. Em 9,1-7 nasce o Menino prometido como “Admirável conselheiro, Deus Forte, Pai do século futuro, Príncipe da Paz” ( 9,5). Em 11.1-9 o tronco de Davi floresce e produz um rebento, que é o Messias. Este faz descer sobre a terra a plenitude do Espírito do Senhor e cumpre as promessa de restauração da natureza violentada pelo pecado.

Por estes vaticínios lsaías se impõe como um dos maiores profetas do Antigo Testàmonto.

            O 2º Isaías (40--45). Este bloco se deve a um autor ou a autores anônimo(s) (Dêutero ou Segundo lsaías), que pregaram e escreveram na Babilônia, anunciando aos israelitas aí deportados a iminente libertação e a volta à Terra Santa (sec. VI a.C.).

            A situação histórica suposta por Is 40--55 difere da do séc. VIII (Is 1-35): os remos de Samara e Judá já não existem; os seus cidadãos foram despojados e deportados, em castigo de suas infidelidades;  42,18-25; 43,5-7.26-28; 47,6; 52,5;  Jerusalém e o Templo estão destruídos e a sua restauração é profetizada:   44,26-28; 45,13; 49,15-17.19; 52,9; a nação que retém os judeus, é Babilônia, opulenta e arrogante, mas prestes a cair em ruínas;  47,5-9; o rei Ciro da Pérsia parece conhecido aos leitores; Javé o dirigirá contra a Babilônia;  46,1-13; 47,1-11; os leitores são estimulados à confiança e à alegria, pois se aproxima o fim do exílio;  40,l0s.27; 41,10-13; 46,12s; 48,20.

Tem-se a impressão de que o autor dos dizeres está fisicamente presente aos seus ouvintes, pois os interpela em tom vivo e caloroso;  40,21.26.28; 43,10; 48,8; 50,10... Nunca dirige palavras condenatórias contra Israel, mas apenas contra Babilônia; 41,11-16; 42,14-17; 43,14s. Os oráculos de consolo são marcantes, predizendo o cumprimento das antigas promessas messiânicas (41,25-29; 46,8-12), a libertação do povo e a travessia pelo deserto em demanda da Terra Santa (41,17-20; 43,1-7; 49,7-26), a glória da futura Jerusalém (51,17-52,2; 54,1-3.11-17), a conversão dos gentios (45,14-17.22-25; 55,3-5).

            Inseridos em 40--55, estão os quatro “Cânticos do Servo de Javé”, que falam da expiação prestada por um Servo Inocente em favor dos seus irmãos pecadores. São profecias messiânicas, que projetam nova luz sobre o sentido do sofrimento; este pode recair sobre os justos, que assim prestam satisfação pelos pecados alheios. Dispõem-se do seguinte modo: Is 49,1-6: a vocação do Servo de Javé; Is 42,1-4: os predicados do Servo de Javé; Is 50,4-9: a Ingrata missão do Servo de Javé; Is 52,13-53,12: a morte e a glorificação do Servo de Javé.

Estes cânticos, assim esparsos no bloco 40--55, parecem ter origem independente deste conjunto, que não é possível reconstituir com clareza.

            O 3º Isafas (56-66). Difere de Is 1--35 e Is 40--55 tanto por seu fundo histórico como por sua temática e seu estilo. Sim; trata de consolar e exortar os judeus recentemente repatriados do exílio. Israel, de novo na Terra Santa, constitui uma comunidade religiosa; parece, porém, que é infiel à Lei do Senhor; está desanimado diante dos obstáculos que se opõem à reconstrução do Templo e da Cidade Santa; os próprios anciãos e maiorais. se mostram indignos de suas funções. Não obstante, o profeta reafirma as antigas promessas de Javé, principalmente as que se referem à nova Jerusalém, ponto de convergência tanto dos judeus fiéis como dos pagãos convertidos ao Senhor na era messiânica,

            Vejamos, por exemplo, como a situação histórica de Is 56-66 já não é a do exílio (587-538 a.C.): o povo já habita a montanhosa e acidentada região da Palestina (Is 57,5-7), que contrasta com as planícies da Babilônia, Irrigadas por belos canais Jerusalém se acha parcialmente povoada, mas ainda não devidamente reconstruída; 60,10; 61,4; as cidades menores da Terra Santa ainda se encontram devastadas;  64,9; o Templo Santo ainda está em ruínas (64,lOs), embora já se pense em reconstrui-lo (66,1);  o povo vive angustiado não por causa da opressão de inimigos, mas em virtude da infidelidade dos próprios judeus;  57,Ç3-5; 59,9-12; 61,1-3; 63,18s; os chefes da comunidade ocupam-se mais consigo do que com o povo; 56,10-12;  contudo o Senhor enviará sua salvação, mas não por obra de Ciro ou do Servo de Javé; 60,22; 61,1-3; 62,7s; 66,12s; o Senhor promete a reconstruçao do Templo (56,5-8, 58,2, 62,9, 66,6.20), que será famoso centro do culto de Javé (cf. 60,7.13).

            O Profeta, em Is 56-66, deixa de ser propriamente o Consolador, para fazer as vezes de Pastor, Doutor e Salmista. Lembra as severas exigências do culto e da Lei do Senhor, em particular o sábado (56,2,4-6; 57,6-12; 58,13s; 65,1-6; 66,3s). Repreende os idólatras e infiéis (56,8-57,13; 58,1-5; 66,17). Recita profissões de fé e de penitência (59,1-4; 63,7-64,11). Transmite instruções a respeito do jejum e da oração (58,1-12).

É de crer que o bloco 56--66 seja uma coletânea de oráculos devidos a diversos autores, que deram origem ao livro chamado “o Terceiro (o Trito)-Isaías”.

            Vê-se, pois, que diversas mãos concorreram para confeccionar o livro de Isaías tal como ele hoje se encontra, sendo que a última redação do volume se deve ao ano de 400 a.C. aproximaclamente; os últimos redatores terão efetuado ou confirmado a compilação de Is 1-39, 40-55, 56-66, dando ao conjunto a forma estilística e doutrinária que atualmente o caracteriza.

            O livro de Isaías deixou-nos profecias messiânicas tão vivas que Isaias é chamado “o Evangelista do Antigo Testamento”. 
JEREMIAS

Ao profeta Jeremias são atribuidos o livro de profecias e o das Lamentações.

Jeremias (650-567 a.C.) nasceu em Anatot, perto de Jerusalém. Por volta de 626, foi chamado à missão de profeta (1,2; 25,3), que ele exerceu em circunstâncias muito dificeis. O reino de Judá era cada vez mais ameaçado por adversários; ora Jeremias devia dizer ao rei e ao povo que não fizessem alianças políticas com estrangeiros, mas se submetessem aos babilônios, que acabaram destruindo Jerusalém em 587. Por causa do teor de sua pregação, Jeremias foi duramente perseguido: em sua cidade de Anatot, os concidadãos quiseram cordená-lo à morte, porque lhes censurava os costumes (11,18-12,6). Jeremias transferiu-se então para Jerusalém e, pelo mesmo motivo, foi colocado no cárcere pelo sacerdote Fassur (18,1-20,6). Libertado da prisão, predisse a ruína da Cidade Santa e do Templo e, por isto, foi condenado à morte pelos sacerdotes e os falsos profetas, mas escapou, mais uma vez, da morte (26,1-19).

Em 605, Jeremias ditou ao seu secretário Baruc os oráculos que ele tinha proferido desde o começo da sua missão ou desde 626 (36,2); Baruc leu-os para o povo no Templo. Então o rei Joaquim, de Judá, mandou queimar esse escrito (36,27). Em consequência, o profeta os ditou de novo, acrescentando-lhes ainda outros vaticínios (36,32). O rei Sedecias, posterior a Joaquim, mais de uma vez mandou encarcerar Jeremias como traidor da pátria (37-39). Jerusalém tendo caído sob os golpes de Nabucodonosor em 587, Jeremias foi libertado da prisão e quis ficar na Terra Santa, junto a Godolias, que o invasor colocara como Prefeito à frente de Judá (40,1-6). Todavia Godolias foi assassinado por judeus, que fugiram para o Egito levando consigo o Profeta (42,1-43,13). Neste país, Jeremias ainda exortou a sua gente à penitência (44,1-30). Reza a tradição, à qual parece aludir Hb 11,37, que Jeremias morreu apedrejado pelos judeus que não o queriam ouvir no Egito.

Jeremias era dotado de grande sensibilidade, de modo que sofreu profundamente durante toda a vida de profeta. Desde o início, o Senhor lhe disse que deveria “arrancar e destruir, exterminar e demolir” (1,10). Ele tinha que anunciar a desgraça numa atitude aparentemente derrotista e antipatriótica (20,8-10); os reis, os sacerdotes, os falsos profetas e o povo o tinham como “homem discutido e debatido pelo país inteiro” (15,10). A dor que tal situação lhe causava, exprime-se frequentemente através das “confissões” ou relatos autobiográficos de Jeremias; 12,1-6; 15,lOs.15-21; 20,7-13.14-18. Apesar dos seus momentos de fadiga, o profeta reagia sempre, depositando finalmente sua confiança em Deus: “Louvai Javé, pois livra a alma do pobre das mãos dos perversos!” (20,13).

Por ter sido o homem das dores, Jeremias é tido como figura do Cristo Jesus; é o tipo do arauto da Palavra de Deus que sofre duras contradições por ser fiel à sua missão. Pelo mesmo motivo, Jeremias dá início, na história do povo de Deus, à corrente dos “pobres (anawim) de Javé”; em tal contexto, pobre é aquele que carece de amparo humano e, por isto mesmo, mais se apoia em Deus; conserva a fé e a confiança numa alma destituída de qualquer presunção ou arrogância.

O livro de Jeremias contém os testemunhos dos quarenta anos de pregação do profeta (626-586). A história político-religiosa desse período está, de certo modo, retratada em seus vaticínios; a ordem destes não é rigorosamente lógica nem cronológica. Como quer que seja, o livro pode ser dividido em três partes:
1) 2-25, oráculos contra Judá e Jerusalém;
2) 26-45, notícias biográficas sobre a atividade de Jeremias desde o início do reinado de Joaquim até a queda de Jerusalém e a fuga para o Egito;
3) 46-51, oráculos contra os gentios. Á guisa de prólogo, é narrada a vocação de Jeremias (cap. 1) e, em estilo de apêndice, há notícias sobre o fim de Jerusalém (cap. 52).

            Deve-se notar que existe grande diferença entre o texto hebraico de Jeremias e o texto grego dos LXX. Este é muito mais breve, dado que aí falta quase a oitava parte ou aproximadamente 2.700 vocábulos do texto hebraico. Essas omissões, às vezes, versam sobre palavras de pouca importância, mas em vários casos tocam versículos ou mesmo passagens inteiras (29,16-20; 33,14-26; 39,4-13...). Além do mais, o texto grego apresenta outra ordem de vaticínios, pois após 25,13a vêm os oráculos contra os gentios (46--51 do hebraico), dispostos de modo próprio.

Não é fácil explicar esta divergência. A sentença mais provável admite duas recensões do texto hebraico: uma mais longa, e outra mais breve; a partir desta, terá sido confeccionada a tradução dos LXX. Além disto, podem-se admitir omissões e interpolações do texto por parte dos tradutores.

O livro de Jeremias é de rico conteúdo. Eis alguns traços importantes da sua mensagem:

a) O livro é, em muitas de suas partes, o espelho da piedade e dos íntimos sentimentos de Jeremias em relação a Deus e ao seu povo. Especialmente as passagens ditas ‘Confissões” testemunham a familiaridade do profeta com o Senhor Deus: 11,18-23; 12,1-6; 15,10-21; 17,12-18; 18,18-23; 20,7-18 (o autor propõe a Deus as suas indagações, os seus gemidos e as suas preces). Ocorrem, sim, sentimentos de vingança (12,13; 17,18; 18,21-23), de desânimo (12,3; 15,10.16s; 20,7-10), mas superados por palavras de encorajamento e confiança (12,5; 15,19-21; 20,11-13) e de verdadeiro amor ao povo de Judá ameaçado (4,19-21; 8,21-9,1; 14, 1-i5,5.i1; 1820). A oração de Jeremias tem grande valor junto a Deus (7,16; 11,14; 14,11).
           
b) A nova e definitiva Aliança é descrita a partir da experiência pessoal e mística do profeta: a Lei de Deus estará gravada nos corações (31,31-33 e 24,7; 32, 39); todos conhecerão a Deus no seu íntímo (31,34a) e receberão o perdão dos pecados para levar a vida nova (31,34b; 33,8). O Messias será Filho de Davi e instaurador de nova ordem (23,1-8). Merecem ser lidas atentamente as passagens seguintes, em que a volta do exílio e a ordem messiânica são descritas simultaneamente: 31,10-23; 33,6-22. Confira-se Hb 8,8-13; 10,15-17; ML 26%28; Jo 4,42; 2Cor 3,2.6.14; lJo 2,12-14.

            Jeremias, maltratado durante os anos de sua missão, foi exaltado pelos pasteres, que lhe atribuiram grande autoridade. Foi tido como o amigo e o intercessor de seu povo junto a Deus no além; 2Mac15,13-15; 2,1-8. É citado em Dn 9,2 e Eclo 49,7-9. Propondo uma Aliança nova fundada sobre a religião do coração, Jeremias tornou-se o pai do judaísmo em sua corrente mais pura; exerceu influxo em Ezequiel (Ez 36,23-32), no 2º Iaías (Is 49,1; 52,13-53,12) e em vários salmos (SI 138 ou 139; 39 ou 40; 41 e 42 ou 42 e 43...). A sua vida de abnegação a serviço de Deus o fez imagem do Servidor de Javé (Is 53), que é o próprio Cristo.
O livro das Lamentações

            As Lamentações vêm a ser uma coleção de cinco cânticos, que choram a queda da Cidade Santa Jerusalém em 587 a.C. Os quatro primeiros são acrósticos, isto é, as letras iniciais dos seus versículos formam o alfabeto hebraico segundo a série das suas 22 letras. O quinto cântico não é acróstico, mas tem tantos versículos (22) quantas são as letras do alfabeto hebraico.

            No primiro cântico, o poeta e a cidade personificada lamentam a destruição de Jerusalém; reconhecem a culpa do povo.

No segundo cântico o autor lastima a punição de Jerusalém e exorta a cidade à penitência (2,1-19); em 2,20-22, Jerusalém pede misericórdia.

No terceiro cântico, o autor descreve a sua dor diante da desgraça de Jerusalém e sua esperança na misericórdia divina.

]           No quarto cântico, mais uma vez é pranteada a ruína de Jerusalém castigada segundo a justiça.

O quinto cântico tem a forma de oração (“Oração do Profeta Jeremias”, conforme a Vulgata latina), que implora a ajuda de Deus para as vítimas da catástrofe de Jerusalém, Em 4,21s lê-se uma predição de ruína para Edom, povo vizinho de Judá, que, após 87 a.C., longe de apoiar Judá vencido, aproveitou-se da desgraça de Jerusalém.

A tradição atribui ao profeta Jeremias a autoria das Lamentações, apoiando-se em 2Cor 35,25, que apresenta o profeta como autor de Lamentações. Na verdade, Jeremias não teria dito que a inspiração profética se havia esgotado (Jr 42,7-22 e Lm 2,9), nem teria esperado auxílio do Egito (Jr 37,7s e Lm 4,17), nem teria elogiado o rei Sedecias (Jr 22,13-28; 37,1 7s e Lm 4,20), nem teria apelado para a culpa dos pais (Jr 31,29 e Lm 5,7)... Mais: o estilo espontâneo de Jeremias dificilmente se teria enquadrado dentro do rígido artifício dos poemas acrósticos.

Em conseqüência, as Lamentações são atribuidas a um ou mais autores anônimos há quem julgue que os cap. 1 e 5 são de autores diferentes); terão sido redigidas na própria Terra Santa, sob o impacto recente da catástrofe de 587 a.C., a finalidade terá sido litúrgica, isto é, as Lamentações devem ter sido compostas para comemorar todos os anos a queda do Templo e de Jerusalém no dia que os judeus consagravam a tal evento (9 do mês de Ab = julho/agosto). A Igreja lê as Lamentações nos últimos dias da Semana Santa para relembrar o drama do Calvário. É de notar que esses cânticos fúnebres são perpassados por vivo sentimento de arrependimento e de inabalável confiança em Deus,  o que dá valor permanente a esse pequeno livro.
BARUC
Baruc (= Bento) foi companheiro e amanuense ou escriba de Jeremias profeta (Jr 3212 e Jr 36,26). Acompanhou o mestre no Egito depois da queda da Cidade Santa (Jr 43,6-7). O livro atribuído a Baruc consta de cinco capítulos e de um apêndice dito “Carta de Jeremias”, que a Vulgata latina considera como o cap. 6 de Baruc.

Br 1--5 é uma coletânea de três peças, que supõem o povo de Judá exilado na Babilônia: após uma introdução (1,1-4), que estabelece a comunhão entre os exilados e os habitantes de Jerusalém, a primeira parte (1,15-3.8) é uma oração de confissão dos pecados e de esperança dos exilados, que imploram a misericórdia divina. A segunda parte (3,9-4,4) é um poema sapiencial que identifica a sabedoria com a Lei de Deus e exorta Israel a voltar para a fonte da sua felicidade, que é a observância da Torá (= Lei). A terceira parte (45-5,9) é outro poema, no qual Jerusalém personificada se dirige a seus filhos no exílio, exortando-os à coragem e à perseverança na fé (4,5-29); depois do que o profeta consola Jerusalém atribulada, recordando-lhe as promessas messiânicas (4,30-5,9).

A introdução (1,1-14) foi escrita diretamente em grego. O resto do livro deve ter sido redigido originariamente em hebraico, mas atualmente só existe no texto grego dos LXX, a partir do qual foram feitas traduções latinas. As características do livro (especialmente o louvor à Sabedoria em Br 3,9-4,4) são da época posterior ao exílio; há mesmo quem julgue tratar-se de obra de meados do séc. l a.C. Donde se vê que Baruc não é o autor de tal livro; é de crer que os escritos relativos à destruição de Jerusalém foram na tradição judaica atribuídos a Jeremias e a Baruc. Este último também gozava de grande autoridade, pois lhe foram atribuídos dois Apocalipses judaicos, um em grego e outro em siríaco, no século II da era cristã. Dada a sua origem tardia, Br 1--6 não é livro reconhecido pelos judeus como canônico; pertence, porém, ao cânon católico.

O cap. 6 de Baruc ou epístola de Jeremias encontra-se nos manuscritos gregos do Antigo Testamento logo depois de Lm, como livro à parte. Os textos latinos e sírios a anexam a Br como sendo Br 6. O texto original parece ter sido hebraico.

A carta vem a ser uma exortação aos exilados para que não caiam na idolatria do ambiente babilônico em que se acham; chama a atenção para a inércia dos ídolos, que não têm vida e são incapazes de ajudar.

Observemos os refrões:
            “Por conseguinte, não os temais” (15.22.28.64.68) ou: “Como crer ou dizer que são deuses?” (39.44.49.56) ou “Quem não vê que não são deuses?” (51.63.68).

O autor da carta valeu-se de textos de profetas anteriores como Is 1,29; 2,18; Mq 1,7; 5,12s; Jr 2,5.8.25-29; 5,19; 11,12-13.

Mais diretamente ainda o autor se inspirou em Is 40-55 e Jr 10,3-16. Além destas fontes, o escritor consultou sua própria experiência: 6,3-5 (as pompas da idolatria); 6,8-10.12-14.19 (os ornamentos das estátuas); 29.42s (os abusos do culto).

O autor não é Jeremias, como geralmente reconhecem os estudiosos; o título da carta é elemento acrescentado posteriormente, talvez porque Jeremias foi autor da epístola consignada em Jr 29. O texto deve-se a um anônimo, que pode ter escrito no fim do séc. IV a.C., quando a idolatria da Babilônia tomava novo surto. A finalidade é acautelar os judeus da diáspora e incitá-los à fidelidade religiosa.

EZEQUIEL

Ezequiel (Deus dá força) era sacerdote (Ez 1,3), casado, que perdeu a esposa pouco antes da queda de Jerusalém (Ez 24,16-18). Foi chamado para a missão profética em 593 (Ez 1,2); exerceu seu ministério até 571 (Ez 29,17). Não se sabe bem onde nem quando morreu; uma tradição judaica pouco segura diz que foi apedrejado pelos judeus em virtude das censuras que lhes fazia. Por conseguinte, Ezequiel acompanhou o povo de Judá na fase mais crítica da sua história, quando Jerusalém caiu sob Nabucodonosor (587 a. C.).

O livro de Ezequiel compreende quatro partes: após a introduçâo (cap. 1 --3), na qual o profeta recebe sua missão, ocorre a 1ª parte (cap. 4--24), com censuras aos judeus antes da queda de Jerusalém; a 2ª parte (cap. 25--32) contém oráculos contra os povos estrangeiros; que agravavam os males físicos e morais de Jerusalém; a 3ª parte (33--39) consola o povo durante e após o cerco de Jerusalém, prometendo-lhe um futuro melhor; a 4ª parte (40--48) descreve a nova cidade e o novo Templo após a volta do exílio.

Quem se lê o texto de Ezequiel, tem a impressão de que toda a atividade do profeta se desenvolveu no exílio, onde foi chamado pelo Senhor quando estava à margem do rio Cobar “na terra dos caldeus ( babilônios)”1,2.

Todavia nos últimos decênios esta tese tem sido discutida. Com efeito, alguns críticos notam que os oráculos da primeira parte do livro so dirigidos aos habitantes de Jerusalém; o profeta parece estar fisicamente presente entre estes. Em conseqüência, tais autores admitem duas fases no ministério profético de Ezequiel: a primeira terá ocorrido na Terra Santa mesma entre 593 e 587; a segunda se terá desenvolvido na Babilônia de 587 a 571. Cada uma destas duas fases terá sido provocada por uma vocação divina: a visão do rolo em 2,1--3,9 haveria desencadeado a missão em Judá, ao passo que a visão do carro divino em 1,4-28 e 3,10-15 teria dado início à atividade na terra do exílio.

Os críticos supõem que esta visão do carro divino estivesse originariamente no início do cap. 33 (ponto de partida do ministério na Babilônia), mas terá sido transposta para o início do livro, onde atualmente se acha; em consequência desta transposição, o livro dá a entender que Ezequiel só teve uma visão e vocação e, por conseguinte, um só ministério, a saber: na terra do exílio. Os que defendem a nova hipótese, apelam para o fato de que o livro de Ezequiel foi muito remanejado; isto explicaria a transladação da visão do carro para o começo do livro; explicaria também as alusões à terra do exílio (devidas a acréscimos tardios e inoportunos) ocorrentes na primeira parte do livro, ou seja, em 3,23; 8,2-4; 10,152022; 11 ,24s.

Na verdade, a nova tese ajuda a resolver certos problemas, mas suscita outros, pois, como se vê, exige sérias reestruturações do texto (seriam, de fato, prováveis?) — Além disto, observa-se que, se Ezequiel exerceu algum ministério na Palestina, ele devia morar fora da Cidade Santa, pois era transportado para lá ( 8,3; 11,1). Também causa estranheza o fato de que Jeremias profeta, contém partes de Ezequiel, no se refira a eSte se Ezecuiel se achava na Palestina, e vice-versa; igualmente causa espécie o silêncio de Ezequiel a respeito de falsos profetas e de cortesos de Jerusalém, que tanto se opuseram a Jeremias e que certamente teriam impugnado Ezequiel se este pregava na terra de Judá. Ponderadas estas dificuldades, pode-se dizer que hoje a hipótese de duplo ministério está quase abandonada.

De resto, a tese tradicional (um só ministério, exercido na Babilônia) no suscita problemas insolúveis: observemos que, quando Ezequiel parece estar em Jerusalém, o texto diz que ele foi transportado para lá, “em visão” (8,3) e que foi trazido de lá ‘em visão” (11,24); ademais as censuras dirigidas por Ezequiel ao povo de Jerusalém podiam servir de lição aos exilados (estes, até a queda de Jerusalém em 587 a. C., julgavam que eram inocentes, punidos por causa dos pecados de seus antepassados: “os pais comeram uvas verdes e os dentes dos filhos ficaram irritados”, Ez 18,2).

O livro de Ezequiel apresenta a pregação profética de Ezequiel na primeira pessoa do singular; apenas dois versículos estão na terceira pessoa (1,3 e 24,24). O livro tem assim uma certa unidade. Mas deve-se notar que não foi escrito de uma só vez nem é todo diretamente da mão do profeta Ezequiel; é de crer que tal obra seja devida a discípulos, que trabalharam a partir de escritos e recordações do mestre, combinando-os entre si e completando-os.

Os indícios de compilação são vários:
— repetiçóes: 3,17-21 e 33,7-9; 18,25-29 e 33, 17-20; 7,1-4 e 7,5-9; 1,4-2,2 e 10,1.8-17;

— inserções: a visão do carro divino (1,4-3,1 5) é interrompida pela do livro (2,1-3,9). O relato de 10,1-22 só continua em 11,22, cortado pela descrição dos pecados de Jerusalém ;

— as datas fornecidas nos cap. 26--33 não seguem ordem cronológica; 26,1; 29,1; 30,20; 31 ,1; 32,1; 32,17; 33,21.
Todavia é de se dizer que os discípulos foram fiéis ao mestre, pois conservaram, além do uso da primeira pessoa do singular, a unidade de estilo e de expressões: “Filho do homem”, “Sabereis que eu sou o Senhor...“, “Foi-me dirigida a palavra do Senhor...“, “Fez-se a mão do Senhor sobre mim...”

Ezequiel recorre frequentemente a gestos simbólicos: 4,1 -5,4; 12,1 -7; 21 ,23s; 24,22-24; 37,1ss. também dado a visões: 1,1;1,4-28; lOs;37,1-14;43,1-7, textos estes que põem o leitor diante de quadros fantásticos.

Também revelam fecunda imaginação as alegorias referentes às duas irmãs Oola e Ooliba (cap. 23), ao naufrágio de Tiro (ap. 27), ao faraó-crocodilo (cap. 29 e 32), à árvore gigante (cap. 31).

O livro de Ezequiel traz também forte marca sacerdotal. Preocupa-se com o Templo e o culto sagrado; tem pontos de contato com a Lei de Santidade (Lv 17-26). Assim é obra da corrente sacerdotal que trabalhou no exílio e no pós-exílio, produzindo também o código P ou Sacerdotal, que entrou na composição do Penateuco.

DANIEL

Daniel (Deus é meu juiz, em hebraico) é o principal personagem do livro homônimo. Deve distinguir-se do sábio Danel de que fala Ez 14,14.20; 28,3; este, colocado junto a Noé e Já, não era israelita, ao passo que o herói do nosso livro era judeu.

O livro de Daniel compreende uma parte canônica (1,1-12,13, com exceção de 3,24-90) e outra deuterocanônica, só existente em grego (13,1-14,42, além de 3,24-90).

            A parte canônica divide-se em duas seções: narrativa (1,1 -6,28) e apocalíptica (7,1-12,13).

            A parte deuterocanônica contém a história de Susana, uma jovem inocente que Daniel salva por sua sabedoria (13,1 -64), a história dos sacerdotes de Bel, que Daniel desmascara (14,1-21), e a do dragão, que Daniel mata (14,22-42); estes episódios do cap. 14 são eco da polêmica judaica contra a idolatria que inspira a seção de Dn 1--6, ao passo que o cap. 13 põe em relevo a sabedoria de Daniel, já salientada em 1--6.

            Muito se tem discutido o gênero literário do livro protocanânico de Daniel. Hoje os exegetas católicos concordam em atribuir 1--6 ao gênero midráxico ou hagádico e 7--12 ao gênero apocalíptico. Mais precisamente:
           
Em Dn 1--6 temos um núcleo histórico: Daniel foi um hebreu deportado para a Babilônia em 606 (1,1); levado para a corte do rei Nabucodonosor, recebeu o nome de Baltassar (1,7); guardou estrita fidelidade à Lei de Deus em meio ao ambiente pagão, de modo que Deus o enriqueceu com dons diversos de sabedoria, que o tornaram notável na corte da Babilônia. Tal é o conteúdo do cap 1 o que se segue nos cap. 2--6 são episódios cujo fundo histórico foi elaborado em sentido apologético, isto é, no intuito de escarnecer a sabedoria pagã e exaltar o Deus de Daniel, fonte da verdadeira sabedoria: note-se que em cada um desses capítulos há uma situação que deixa embaraçados o rei e seus cortesãos ou sábios e que é resolvida pela atuação de Daniel; no final de cada capítulo, o rei pagão reconhece direta ou indiretamente a santidade do Deus de Daniel: 2,46-48; 3,95s; 4,34; 5,29; 6,25-27.

            Há sinais claros de que o autor não se importa muito com o rigor histórico das suas narrativas ou não tencionava cultivar o gênero historiográfico propriamente dito. Com efeito; apresenta Baltasar como rei da Babilônia (5,30; 7,1) e filho de Nabucodonosor (5,2), quando na verdade Baltasar foi filho de Nabonide e talvez nunca tenha reinado. Dano, o medo, tido como sucessor de Baltasar (6,1) e filho de Xerxes (9,1), é desconhecido aos historiadores (talvez se trate de pseudônimo); em 11,2 aparece uma lista de quatro reis da dinastia persa, quando na realidade houve nove deles. Estas imprecisões são características do gênero literário midráxico ou hagádico: o autor de midraxe não quer ser um cronista nem um repórter, mas, sim, um filósofo ou um teólogo, que, através de acontecimentos históricos devidamente apresentados, comunica uma mensagem de índole religiosa; já que o autor de midraxe não quer ser um historiador, não deve ser acuasado de incidir em erros historio-gráficos; não é intenção dele definir pontos de história.

            Julga-se, pois, que os episódios de Dn 2--6 foram redigidos por um autor muito posterior a Daniel, isto é, do século II a. C., que desejava incutir nos judeus a confiança no Deus de Israel. Este é mais forte do que todos os poderes humanos, especialmente os reis sírios, que perseguiam os judeus, ameaçando punir os que se conservassem fiéis à Lei do Senhor.

            A seção de Dn 7--12 é apocalíptica. Isto quer dizer o seguinte: no séc. II a C., quando os judeus eram ameaçados pelos sírios pagãos (167-164), um autor piedoso quis despertar em seus compatriotas a esperança e a paz. Em vista disto, recapitulou a história dos últimos séculos e apresentou a sua época como próxima à libertação messiânica; Deus haveria de intervir em breve a fim de sacudir o jugo estrangeiro que dominava Israel desde Nabucodonosor, e instaurar no mundo a justiça e a ordem devidas; os que ficassem fieis, seriam recompensados. Precisamente a descrição do julgamento de Deus sobre os povos dentro de um cenário cósmico que caracteriza os escritos apocalípticos. O gênero apocalíptico já ocorre antes de Daniel em Ez 38s; Is 24-27; Zc 9-14.
 
No cernário apocalíptico em Dn 7,1-28 situa-se um texto profético, relativo ao Filho do Homem e ao seu reino definitivo sobre todas as nações: 7, 13s. Estes versículos projetam luz sobre o apelativo Filho do Homem com que Jesus se apresentou nos Evangelhos: é um título messiânico, que devia ter profundo significado para os seguidores de Jesus. Aliás, foi aludindo a tal passagem que Jesus se identificou quando interrogado pelo Sumo Sacerdote judaico antes de morrer: “Eu sou o Cristo, o Filho de Deus bendito, E vereis o Filho do Homem sentado à direita do Todo-Poderoso e vir com as nuvens do céu” (Mc 14,62; Jo 3,13s; 5,27; 8,28. .

Estas considerações nos levam a dizer que o livro de Daniel não é um livro profético (embora contenha umas poucas passagens proféticas: 2,34.44s; 7,13s; 12,1-3), um midraxe (2--6) e um apocalipse (7 a 12): o autor no séc. lI a. C. refere sob forma de símbolos (geralmente feras) a história dos impérios que dominaram Israel desde Nabucodonosor até os Sírios (167-163 a. C.) a fim de dizer aos seus contemporâneos do século II que o jugo estrangeiro está para chegar ao fim, porque o Senhor Deus estava para entrar manifestamente na história deste mundo, realizando o juízo sobre os povos e premiando o povo fiel, por isto que o livro de Daniel, no cânon dos judeus, não se encontra entre os profetas, mas, sim, entre os escritos sagrados que formam a última parte do cânon hebraico.

            A edição dos LXX é que colocou Daniel na categoria dos profetas, interpretando o seu texto como se fosse o de um profeta. É de notar, porém, que o estilo de Daniel difere claramente do dos profetas: descreve minuciosamente a sucessão dos remos do século VI ao séc. II referindo-se a pormenores muito precisos — o que não é do estilo dos profetas; estes geralmente são obscuros quando se referem à história.

            As partes deuterocanônicas (cap. 13--14) pertencem ao gênero literário de 2--6, referindo episódios que mostram a sabedoria de Daniel e a grandeza do Deus de Israel.

O texto do livro de Daniel apresenta um problema para o qual os estudiosos não encontram explicação. Com efeito, foi nos transmitido em três linguas: 1,2-2,4a, em hebraico; 2,4b-7,28, em aramaico (com exceção de 3,24-90, parte deuterocanônica); as partes deuterocanônicas, em grego.

            Esta diversidade talvez provenha do fato de que o livro de Daniel consta de seções que foram originaria- mente redigidas sem dependência uma da outra. Terão sido compiladas em primeira instância de modo a originar os blocos 1--6 e 7--12; em ulterior instância, ou seja, entre 167 e 164 terão sido justapostas de modo a produzir o livro de Daniel protocanônico. Os cap. 13--14 terão tido sua origem própria como episódios avulsos; foram aglutinados ao conjunto Dn 1--12; como se crê, são a tradução grega de um texto original hebraico que se perdeu. Notemos que no livro de Daniel não há as características dos livros do exílio e do imediato pós-exilio: lamentações sobre Jerusalém, censura ou consolação aos exilados, promessa de retorno à Terra Prometida, como se encontram em Ezequiel, Lamentações, lsaías 40--55
           
O livro de Daniel tem importância teológica, pois apresenta o modo de pensar dos judeus do século II a. C. ou quase no limiar da Revelação Cristã:
           
Observemos aí:

— a angelologia (doutrina a respeito dos anjos) muito evoluída; Dn
7,1 0.16; 8,16-18; 9,21 -23; 10,10-21; 12,1 -13;

— a afirmação da ressurreição para a vida ou para o opróbrio; Dn 12,2s (passo notável em relação a Jó e Ecl;           

— a visão da história corno realização de um sábio plano de Deus que termina no Reino Messiânico consumido (cap. 2; 7--8; 10--12).

Os profetas menores

            Os profetas Oséias, Amós, Miquéias, Joel, Abdias, Jonas, Naum, Habacuc, Sofonias, Ageu, Zacarias, Malaquias são chamados ‘menores”, não porque tenham pouca importância, mas porque nos deixaram escritos pequenos, que já no séc. II a.C. eram colecionados num só volume, mais ou menos igual ao volume de um dos profetas maiores (Is, Jr, Ez); o Eclesiástico, escrito no século III aC., supôe já realizada a compilação dos doze profetas num só rolo; cf. Eclo 49,10.

O texto hebraico, o grego dos LXX e a Vulgata latina chamam-nos “os doze Profetas”. A designação de “profetas menores” aparece pela primeira vez em S. Agostinho, + 430.

A ordem dos profetas menores no catálogo sagrado varia no texto hebraico e no dos LXX. Não é cronológica; torna-se difícil assinalar a época precisa de um ou outro desses homens de Deus, Como quer que seja, eles recobrem um período que vai do séc. VIII ao séc. III a.C.; fornecem-nos dados importantes para o nosso conhecimento da história de Israel e dos povos vizinhos. Os seus escritos breves e cheios de imagens apresentam especiais dificuldades para o intérprete; aludem a fatos históricos e pormenores dos costumes do Israel antigo de maneira sucinta.

O texto dos LXX coloca os profetas menores antes dos maiores. A seguir, apresentaremos breves notas introdutórias em cada profeta menor, seguindo a provável ordem cronológica, e não a ordem do Cânon; estas notas serão entendidas se o estudioso tiver ante os olhos uma tabela cronológica da história do Antigo Testamento, com atenção especial para a queda de Samaria (721) e a de Jerusalém (587); o exílio na Babilônia ocorreu de 587 a 538.
De Amós a Habacuc

            Amós era natural de Técua (Judá); cf. 1,1. Pastor de gado e cultivador de sicômoros (7,14); era homem simples, de linguagem franca e rude. Exerceu (o ministério profético por chamado de Deus (7,5), que o levou para o Reino da Sarnaria, onde profetizou sob o rei Jeroboão II (783-743 aC.). Este monarca foi próspero em seus empreendimentos e dilatou as fronteiras do reino (cf. 6,14; 2Rs 14,25). O bem-estar provocou o luxo na construção das casas (3,15; 5,11; 6,8), depravação dos costumes (2,6-8; 4,1; 6,1-6), culto idolátrico (4,4; 5,21-23; 8,14). As calamidades passadas não tinham deixado recordação na mente do povo (4,6-11); este esperava o dia do Senhor (dia do julgamento final) corno se fosse ocasião de mais bem-estar para Israel (5,18-20; 9,10).

Em meio à prosperidade, ressoou a voz de Amós censurando os vícios, principalmente nas cidades em que os reis cismáticos de Israel tinham construído santuários: Samaria (3,9; 4,1; 6,1-6), Gálgala (55) e Betel (4,4; 5,5s; 7,13). Toda a população de Samaria foi severamente repreendida, principalmente os chefes e maiorais; a queda do reino, que ocorreria em 721. Incomodado pelo profeta, Amasias, que devia ser o responsável pelo Templo em Betel, denunciou Amós ao rei ‘Jeroboão (7,10) e expulsou o profeta para a sua pátria (Judá); 7,13s. Amós soube predizer também a salvação para os bons; é ele quem, pela primeira vez, utiliza a expressão “o resto” de José, para designar os poucos que não se tenham contaminado e com os quais Deus recomeça a sua obra; cf. 5,15, A expressão volta na pregação dos profetas posteriores; cf. Jr 6,9; 31,7; Mq 2,12; o ministério de Amós deve ter sido breve (dois anos apenas Cf. 1,1).

Oséias pregou no reino setentrional da Samaria sob Jeroboáo II (783-743); provavelmente assistiu à queda da Samaria, pois em 1,1 está dito que profetizou sob Ezequias de Judá (716-687). Foi, portanto, testemunha da prosperidade política e material de sua gente, levada, por isto, à corrupção dos costumes e à idolatria. O seu livro se divide em duas partes:
— as relações entre Javé e Israel são simbolizadas pelo casamento de Oséias. Este se casa com uma mulher leviana (Gomer), que o engana; cai na escravidão, depois de abandonar Oséias, mas é resgatada por este, que a recebe de novo como esposa. Julga-se que o epsódio assim relatado (Os 1-3) é fato histórico; serviu para significar a união entre o Senhor e seu povo, violada pelas infidelidades de Israel, que aderiu aos deuses de Canaã;
— Israel é censurado por sua prevaricação política e religiosa do momento presente (4,1-9,9) e do passado (9,10-14,1). O livro se encerra com uma liturgia de penitência (14,2-10). O tema principal do livro é o amor de Javé por seu povo infiel.

Miquéias profetizou sob Joatã, Acaz e Ezequias, reis de Judá (740-690). Deve ter conhecido a queda de Samaria em 721 e a invasão de Senaquerib em Judá (701); cf. 1,2-16, 3,12; 4,9-11.14. O profeta Jeremias cita um de seus oráculos contra Judá em Jr 26,18; cf, Mq 3,12.

O livro compreende quatro partes, onde se alternam censuras e promessas: 1,12-3,12, processo contra Samaria e Judá; 4,1-5,14, promessas a Sião (incluindo notável profecia messiânica em 5,1-4a); 6,1-7,7, novo processo contra Israel; 7,8-20, cântico de restauração de Jerusalém.

      Miquéias não poupa os homens gananciosos, os credores sem compaixão, os comerciantes fraudulentos, as famílias divididas, os sacerdotes e os profetas cobiçosos, os chefes tirânicos, os juizes venais, e propõe o quadro ideal: “praticar a justiça, amar com misericórdia e proceder humildemente diante de Deus” (6,8), o que resume a doutrina dos profetas em geral.

            Sofonias exerceu sua atividade sob o piedoso rei Josias (640-609) ou, mais precisamente, antes da reforma religiosa empreendida por este monarca em 622 (.cf. 2Rs 22,3-23,21), pois o profeta censura o culto de falsos deuses (1,4s), os ministros da corte real (1,8s; 3,3), as moda estrangeiras (1,8), os falsos profetas (3,4), as injustiças sociais (3,1-3), males aos quais Josias procurou dar um fim em 622.

            O livro divide-se em quatro breves partes: 1,2-2,3, o Dia de Javé; 2,4-15, oráculos contra as nações pagãs; 3,1-8, vaticínios contra Jerusalém; 3,9-20, promessas de salvação para os gentios e para Israel.
            A mensagem principal de Sofonias é o anúncio do Dia do Senhor,. tema já abordado por Am 5,18-20 Is 2,10-22; o quadro traçado pelo profeta tem dimensões cósmicas (1,14-18) e recorre a imagens muito significativas (1,7.10s.12; 2,2). O Senhor salvará o resto do seu povo (2,9; 3,13), que lhe servirá na humildade, na piedade e na justiça (2,1-3; 3,11-17).

            Naum era natural de Elcós, cidade a nós desconhecida (cl. 1,1). Trata unicamente da iminente queda de Ninive, capital do império assírio, que ameaçava e subjugava as populações do Próximo Oriente e, em particular, de Judá. Começa por um salmo que descreve a esplendorosa manifestação de Javé, juiz dos povos (1,2-8); a seguir, propõe em duas cenas a ruína de Ninive: 1,9-2,14, a descrição profética da queda da cidade; 3,1-19, a lamentação sobre a cidade destruída.
           
O livro é pouco anterior à perda de Nínive em 612. Exprime o calor da alma de Israel diante do seu inimigo tenaz, o povo assírio, como também revela as esperanças suscitadas pela previsão de sua queda. Através dessas páginas, perpassadas por forte nacionalismo, exprime-se um ideal de justiça e de fé: a ruína de Nínive corresponde a um juízo de Deus, que castiga o inimigo do plano do Senhor (1,11; 2,1) e o opressor dos povos (1,12s; 3,1-7). Is 52,7 retoma a imagem de Na 2,1 para descrever a mensagem da salvação.

Habacuc profeta não deve ser identificado como o homônimo de Dn 14,32-38. O seu livro versa sobre o tema “Por que o ímpio prevalece contra o justo e insolentemente o oprime?” O Senhor responde apontando a queda final dos ímpios e a libertação dos justos. A temática assim e desenvolve: 1,2-11; primeira lamentação (1,2-4), à qual o Senhor responde dizendo que suscitará os caldeus para punir os ímpios (1,5-11); 1,12-2,20, segunda lamentação (1,12-17), diante da qual o Senhor promete vencer o opressor (2,1-20); 3,1-19, salmo do triunfo final de Deus. Muito provavelmente os ímpios que o profeta tem em vista, são os assírios, contra os quais o Senhor havia de suscitar os caldeus, isto é, os babilônios; estes, de fato, tomaram Nínive em 612 e puseram fim à hegemonia assíria. — Habacuc apresenta uma nota nova: ousa pedir contas a Deus do seu governo no mundo; o problema do mal escandaliza o profeta; em resposta, Habacuc ouve que, por caminhos paradoxais, Deus prepará a vitória final do direito; entrementes, o justo vive pela sua fidelidade (cf. Hab 2,4; Rm 1,17; GI 3,11; Hb 10,38).

De Ageu a Jonas

            Ageu dá início ao último período dos profetas, que se segue logo ao exílio (587-538 a,C.). A mudança de tom é muito perçeptível: antes do exílio, a temática dos profetas era censura e ameaça de castigo; durante o exílio, tornou-se consolação; após o exílio, veio a ser Restauração.
           
            Ageu acompanha o povo recém-tornado do cativeiro babilônico (587-538 a.C.). Essa gente era hostilizada pelos estrangeiros residentes na Judéia e nos países vizinhos (Esdr 4,1-4); era também acabrunhada pela penúria (Ag 1,6,105; 2,175; Zc 8,10). Diante das ameaças do desânimo e da inércia, o profeta exortou os seus compatriotas a retomarem a obra de reconstrução do templo do Senhor em Jerusalém. Proferiu duas exortações entre o final de agosto e meados de dezembro de 520. Apresenta a reedificação do templo como a condição da vinda de Javé e do seu reino.
           
            O livro de Zacarias compreende duas partes bem distintas: 1,8 e 9,14. Depois de uma introdução (1,1-6), datada de outubro-novembro de 520, dois meses após a primeira profecia de Ageu, o livro refere oito visões do profeta, que tratam da restauração e da salvação de Israel (1,7-6,8); seguem-se oráculos messânicos (6,9-8,23). Este conjunto é certamente da autoria do profeta Zacarias.
           
A segunda parte (9-14) é muito diferente. Os oráculos não apresentam data e são anônimos; não falam nem de Zacarias nem da reconstrução do templo. Julga-se que foram redigidos nos últimos decênios do séc. IV a.C., após o reinado de Alexandre Magno (323). Carecem de unidade, pois constituem duas seções, cada uma das quais tem um título ( 9,1 e 12,1) — o que tem levado os estudiosos a falar de Dêutero-Zacarias e Trito-Zacarias (como faIam de Segundo lsaías e Terceiro lsaías). O 2ºZacarias refere-se a fatos históricos difíceis de precisar; o 3º é um apocalipse que descreve as glórias da Jerusalém dos últimos tempos.

Malaquias significa “meu mensageiro”. Pergunta-se se é o nome de um profeta ou um apelativo genérico (cf. 3,1). O livro consta de seis seções que seguem o mesmo esquema: o Senhor lança uma afirmação; o povo ou os sacerdotes a contestam, mas Javé (geralmente em tom repreensivo) a sustenta. Dois grandes temas são abordados nesses oráculos: as faltas dos sacerdotes e dos fiéis na celebração do culto divino (1,6-2,9 e 3,6-12), o escândalo dos matrimônios mistos e dos divórcios (2,10-16).

            O Profeta anuncia o Dia do Senhor, que purificará sacerdotes e levitas, punirá os maus e concederá aos justos o triunfo (3,1-5.13-21), A promessa da vinda de Elias, que precederá o dia do juízo final, parece ser um acréscimo posterior (mas, sem dúvida, parte canônica do livro). Este escrito supõe o culto já restaurado no Templo (515), mas é anterior à proibição dos matrimônios misto, devida à reforma de Esdras e Neemias em 445 a.C. (Esdr 9s; Ne 10,28-31; 13,23-31).

            Abdias é o mais curto dos livros proféticos e um dos mais difíceis, Segundo alguns autores, o livro foi dirigido contra Edôm, povo vizinho de Judá, sob o rei Jorã (848-841), pois naquela época os árabes e os filisteus devastavam Judá (Ab 11; 2Cr 21,16). Outros distinguem entre Proto-Abdias (1-10), do tempo de Jorã, e Dêutero-Abdias (11-21), posterior à queda de Jerusalém (587 aC.). Outros, por fim, mais sabiamente atribuem o livro ao período do exílio, pois os vv. 11-14.15b se referem ao ódio dos idumeus por ocasião da queda de Jerusalém em 587 (ct. Ez 25,12-14; 35,ls; Lm 4,21s; SI 136 ou 137,7). O livro exalta a justiça e o poder de Javé, que age como defensor do direito (15s),
           
O livro de Joel compreende duas partes: 1,2-2,27 refere-se a uma invasão de gafanhotos que flagela Judá e dá ocasião a uma liturgia de luto e súplica; o Senhor responde prometendo pôr termo à praga e restaurar a fartura; 2,28-3,21 descreve o Dia do Senhor, caracterizado pela efusão do Espírito, o juízo sobre as nações e a restauração messiânica do povo eleito. A unidade das duas partes é efetuada pela menção do Dia do Senhor, que é propriamente o tema dos cc. 3-4, mas que já é apontado em 1,15; 2,ls.lOs.

Os gafanhotos da primeira parte não hão de ser interpretados em sentido alegórico, como se significassem inimigos provenientes do Norte; trata-se de verdadeira praga, que é tomada como figura dos acontecimentos que antecederão imediatamente o Dia do Senhor (aliás, este é mencionado na primeira parte). A segunda seção de JI tem características de um apocalipse, gênero literário que descreve a intervenção final de Deus na história, com abalo da natureza.
           
O livro data do pós-exílio ou do ano de 400 a.C. aproximadamente, pois não menciona rei em Judá, mas apenas anciãos e sacerdotes (1,9.13.16; 2,1,15,..); há referências à dispersão do povo de Deus entre os gentios (3,2), à venda de judeus como escravos aos gregos (4,6). O livro de Joel vem a ser um compêndio da escatologia judaica.

Jonas difere de todos os outros livros proféticos. Narra a história de um profeta que recusou a ordem do Senhor para que fosse pregar aos ninivitas. Milagrosamente colhido pela Providência, Jonas vai a Nínive e consegue converter a grande cidade. Eis, porém, que se entristece por haver comunicado a mensagem da fé a pagãos. Então Deus lhe afirma que a misericórdia divina atinge todos os povos.

            Hoje concordam os estudiosos em reconhecer que o livro é uma narração didática, teológica, e não histórica. O autor apresentou Jonas como o tipo do judeu nacionalista, fechado em seu patrimônio religioso. Esse judeu é censurado pelo Senhor, que o leva a compreender que a salvação é destinada a todos os homens. O livro, portanto, é um testemunho do universalismo que seria impondo à mentalidade dos judeus em meio aos preconceitos nacionalistas que levavam os judeus do séc. V a.C. a recusar a salvação aos não-judeus. Sendo de época tão tardia, vê-se que o livro não é da autoria nem refere as façanhas do profeta Jonas mencionado em 2Rs 14,25 nos tempos do rei Jeroboão 11(783-743).